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#ToBeContinued: Quero minha vida de volta?



Não posso lhe ajudar, tenho outros afazeres em minha casa que não incluem alimentar uma maltrapilha, fétida e rançosa. Minha feição foi ao chão, a barriga roncava, os olhos repletos de remela, aquela já era a oitava casa em que havia batido, em busca de alimento. Na tentativa de arrastar-me pela ruela escura, úmida e fria, acabei por cair.

Acordei com a água que emergia do bueiro encontrando meus lábios. O odor mesclado aos detritos oriundos do antigo abatedouro, imundavam os buracos cavernosos de minha arcada dentária. Aquilo não era vida, era abnegação. 

Era complicado aceitar, muito menos viver sobre estas condições sórdidas, desumanas. Os jantares, festas onde havia sido anfitriã povoam um passado distante na massa cinzenta. A "donzela" que um dia havia servido a realeza, organizando eventos, batizados, casamentos, hoje já não valia muito mais do que um reles papel de bala.

Cambaleei, tropecei e após algumas tentativas vis, consegui levantar. O poste gelado na qual havia escorado, repleto de papéis promocionais de "encontre a pessoa amada em sete dias" refletiam o grotesco estado daquela zona da cidade. Esquecida pelos moradores e principalmente pelos governantes.

Um copo de água, meio limão e uma colher de mel, este era o almoço. Ergui os olhos aos céus, agradeci em pensamento, ao menos sobreviveria mais um dia. Os jornais amassados saíram da grande sacola e ganharam função: esquentar, ou ao menos suprir a necessidade de não causar hipotermia. Cabeça repousada, vento gélido e amontoado de papéis, fechei os olhos e minha mente viajou. O destino, um lugar não tão distante... Minha antiga casa e família. O lugar onde fui feliz e não dei valor.


Capítulo I
Mudança radical

"Eu queria morrer. Pensei nessa palavra muitas vezes. É algo difícil de dizer em voz alta. É ainda mais assustador quando você sente que pode estar falando sério".
13 Reasons Why

- Mãe, não esquece de pegar o Iphone e o carregador, não posso ficar sem carga novamente. - Gritei ao vê-la entrando no meu quarto. 

Pelo reflexo do espelho pude observá-la arrumando os cabelos, retocando a maquiagem e borrifando seu melhor perfume francês. O celular sobre a cabeceira da cômoda, intacto, ficou em segundo plano, ou melhor em terceiro. Ignorei. 

- Cadê o celular? - Retruquei.
- Na minha bolsa é claro. - Uma mexida ali, outra aqui. Tirou todos os pertentes e nada de celular. - Filha? Acho que perdi. Me perdoa?

Apenas ri, desenfreadamente por cerca de cinco minutos. Puxei seu queixo em minha direção, olhei bem em seus olhos e disse: "Dona Neide, está tudo bem com você?".

Foi o ápice. Mamãe fechou a cara, emburrou. Cerrou os braços em pose de criança quando perde o pirulito que ganhou da professora. - Camila, até quando você vai ser tão infantil? Aceite filha, eu envelheci. Sou humana. - Não aguentei.

- Calma, calma, calma... Não estou desmerecendo você. Incitando uma possível demência, apenas lhe pedi um favor, pois sabia que seria capaz de realizá-lo, mas me enganei. Parece que perfumes e batons valem mais a pena. 

O clima antes engraçado, tomou uma proporção desastrosa. Mamãe desceu do carro sem dizer uma única palavra, adentrou na casa e pouco mais de dois minutos retornou. Jogou o celular em minha direção, bateu a porta com força, colocou o cinto de segurança e disse: "Vamos!".

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Chegando ao Shopping em plena véspera de Natal, notei que achar uma agulha no palheiro seria mais fácil do que estacionar. Rodei com o carro por cerca de cinco minutos e nada. Parei. Liguei o rádio, a estação tocava Charlie Brow Jr: "Se é não é eu que vai fazer você feliz? Guerra!". Precisava de ar, abaixei o vidro, arrumei o cabelo olhando no retrovisor. Foi quando observei uma vaga a quase duas quadras, acelerei. Sem cerimônias estacionei na vaga para deficiente físico. Desliguei o rádio e peguei minha bolsa da Louis Vuitton. - Vamos, mãe! Tá na hora de gastar.

Caminhamos durante horas, visitamos as lojas dos mais diversos nichos: moda, pet shop, esporte, alimentação. O cartão Black Platinum pulava de máquina em máquina, gerando comprovante e mais comprovantes de pagamento. Dona Neide ao contrário das outras vezes não esboçava entusiasmo, sua criança interior ainda estava em crise com nossa pequena "rixa" de manhã. 

- Senhora, vamos fechar a loja em cinco minutos. Se já tiver escolhido as últimas peças, favor leve até o caixa. - Simplesmente ignorei e continuei desfrutando do cetim, seda, organza e veludo enquanto a balofa anã ficava me chamando atenção. - Só mais um minuto, já estou acabando. 

Passei o cartão, colei nas sacolas e sai da loja. A praça de vendas estava toda escura, a de alimentação prestes a ser fechada. Iluminação pífia. Olhei para trás, mamãe, com aquela cara de "cú" segurava por volta de 12 sacolas de compras e andava mais devagar que uma lesma em estado gestacional. 

- Anda logo Dona Neide, ao contrário de você que vai dormir quando chegar em casa, tenho balada para ir. - Não tive tempo de reagir, apenas vi um vulto e quando tive consciência dos fatos, minha mãe estava inerte, com a boca tampada e com uma faca no pescoço. 

Bigode ralo, algumas espinhas e feição juvenil. As sacolas pisoteadas, jorradas por um líquido vermelho nada sutil, uma bolsa levada. No chão, mamãe implorava por socorro, com as mãos em formato oval, unidas tentando estancar o sangue. Dei um grito abafado.

- Socorro, minha mãe foi esfaqueada!


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Está gostando? Quer mais? O que será que acontecerá com Camila? Dona Neide morreu? Descubra semana que vem, a @dannydemoura irá lhe contar no segundo capítulo.


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