Por: Hiago Júnior
16:39:00
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| Cena do filme 'Guerra dos Mundos' - Créditos: Paramount Pictures Mundo | DreamWorks Pictures |
Dormi pouco. Noite intensa, de um frio entrando pelas frestas da janela, pés debaixo da coberta buscando calor. Não adiantou nada um fazendo carinho no outro e a dúvida de usar meias foi igual à preguiça de levantar na madrugada rumo ao guarda-roupas.
Até a luz de stand-by do computador incomodou, algo já de costume para quem fez o quarto de escritório nestes tempos de distanciamento social. O relógio do celular me contou que eram 2h02. Rezei um Pai Nosso e uma Ave Maria, costume quando vejo números semelhantes. E nada de sono profundo. Fiquei dormindo, acordando, dormindo, acordando.
Nos momentos em que cochilei, tive um sonho estranho. Era uma festa com muitos convidados, mas havia um programa de televisão no meio das bebidas, das músicas, dos petiscos. Sofás arrumados em U, com debatedores falando de vários assuntos. De guerra, de política, de cultura. Uma saia justa, uma roda viva, um debate eleitoral. Tudo se misturava na minha cabeça de observador não participante. O funk de trilha sonora, com bailarinas empolgadas em cima do balcão do bar, homens vestidos com trajes sertanejos brindando caipirinhas. Gretchen e Pablo Vittar conversando, chamando para dançar, ao mesmo tempo em que debatiam os assuntos polêmicos. Quem estava na festa também entrava na conversa. Era um senta e levanta – nos sofás e nos quadris.
Costumeiramente, acordo às 6 horas. A escuridão do quarto e a noite mal-dormida não mudaram a rotina. Despertei assustado e, ao mesmo tempo, dando gargalhadas do sonho maluco. O que as cantoras estavam querendo me dizer? Que cenário era aquele? Quem seriam os outros personagens presentes naquela combinação de ritmos, de assuntos? O relógio marcava 6h07. Meu ouvido zumbia alto. Aquela algazarra de boate. Sonolento, com frio, fechei os olhos para acalmar os tímpanos. O zumbido só aumentava.Um barulho ensurdecedor veio de fora da minha casa. Supus que seria uma moto subindo a Rua da Olaria, que é um morro.
De repente, passou uma moto, que buzinou, e aquele barulho de pás de helicóptero ficou mais próximo da janela do meu quarto. Assustado, puxei a cortina e não vi nada. O céu azul, com poucos raios solares, anunciou as cores do dia, da sexta-feira, 22 de maio de 2020. Sem óculos, com visão embaçada, fiquei com medo.
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O som subia e descia. Longe e perto. Uma onomatopeia assim: Papapapapapapapapapapapa. Papapapapapapapapapapapa. Papapapapapapapapapapapa.
Fiquei pensando se seria alguém com cortador de grama arrumando o quintal. A geladeira queimando, a televisão da minha mãe passando algum filme. Ou algo mais estranho, já que a minha noite combinava com fatos bizarros. Aquele barulho seria de uma nave espacial observando os moradores de Bom Despacho? Afinal, na internet circulam mensagens que os extraterrestres estão nos vigiando, que as imagens de seres de outros mundos estão sendo liberadas pela NASA, que haverá setes dias de escuridão, que o apocalipse começou. E o barulho ia e vinha cada vez mais próximo.
Fechei a cortina. Os olhos. Cobri a cabeça. Dormi novamente. O toque na porta me despertou: “hora de tomar café meu filho. Já são quase dez horas”. Será que eu sonhei tudo aquilo? “Mãe, a senhora escutou algum barulho de manhã. Algo semelhante a um helicóptero?” Ela colocou as mãos nos ouvidos reclamando. “Ouvi e estou até surda e enjoada. Acho que é o caminhão de fumacê contra a dengue que passa aqui na rua de vez em quando”. Silêncio! E risadas.
Coluna escrita e publicada originalmente no site Blog do Juliano
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo
Por: Hiago Júnior
11:07:00
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| Créditos: Disney |
Estou me sentindo o Gênio do Alladin preso na lâmpada. Passando os dias em casa, quieto, marcando no calendário os momentos que tenho vivido... Quase escrevendo na parede os pauzinhos que levam rumo à liberdade, só para me sentir em um cenário de filme. Muitas vezes, acredito que estamos numa velocidade lenta. Em outras, que tudo está muito veloz. O trabalho continua.
Reformulado, (re) aprendendo a ser professor por meio da tela do computador. As aulas virtuais me conectam ao mundo exterior, aos alunos, aos aprendizes, aos clientes terapêuticos. Do escritório tenho entrado em casas que, talvez, jamais iria. E sou grato pelo convite daqueles que me recebem com carinho.
Estou esperando que alguém encontre o objeto mágico para me libertar. Esse é o meu desejo imediato. Nem preciso dos outros dois. Desejo a liberdade do ir e vir, pois estou com saudade de sentar na praça, de tomar sorvete, de conversar amenidades no café, de comer bolo e sanduíche de trailer. Saudade de pegar carona, o ônibus, e encontrar-me em Bom Despacho, Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro, Teresina, nas estradas brasileiras. Fazendo as contas, faltam seis Estados para carimbar as passagens. O Norte do Brasil que me aguarde, pois em breve irei vivenciá-lo, tomando tacacá, para dançar, curtir e ficar de boa. Bolo de macaxeira, açaí com tapioca, moqueca de pirarucu.
Nessa viagem gastronômica, as lembranças em flashback me mostram o quanto faz falta a culinária da experiência: carne de onça em Curitiba, cajuína em Barra Grande, churrasco em Campo Grande, o galeto com arroz e brócolis dos cariocas, Guaraná Jesus e camarão pitú no Maranhão, tudo que se come no Rio Grande do Norte, com camarão, claro. Moqueca capixaba da Felicíssima, arroz doce da Tia Angélica, bombom de morango da Tia Maria, bolo de tapioca da Silvana, caramelo da Tia Guida, iogurte do Vinícius, feijoada da minha mãe – que também servirá no mesmo encontro mingau de fubá, salada marroquina, galopé, macarronada e um suco extravagante de cor exótica.
(Gênio retire o que eu disse sobre querer só um desejo. Escolho ter uma piscina cheia de cerejas frescas e uma cachoeira de suco de maçã da Alemanha. Pode entregar por delivery, por favor.)
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Vontade de estar com a família, com os amigos. Saudade do museu, da praia, de comida japonesa. Dos abraços apertados que distribuo aos afetos da alma. Vontade de estar em um avião, voando por cima dos mares, para acrescentar léguas às viagens pelo mundo. Com a ajuda dos livros e das séries televisivas, tenho me transportado de alguma maneira além da imaginação. Conhecendo personagens que retratam histórias comuns à minha própria existência.
Olho ao redor para visualizar o meu canto, o local que tenho ficado nas últimas semanas. Mesa, computador, sofá, cadeira, almoçadas, estantes. Na parede, um quadro com a Matriz de Nossa Senhora de Bom Despacho; na prateleira, um aparelho de som que está mudo há vários meses. Livros, muitos, de todos os estilos, colorindo minha “lâmpada” ficcional. Eles ficam estimulando os pensamentos, provocando sonhos, compartilhando conhecimentos. Vou consumindo por osmose aqueles que ainda não dedilhei as páginas. Sigo pensando neste recolhimento que “estou isolado, mas não estou só”. Tenho a mim e aqueles que amo. Luz e paz.
Artigo publicado originalmente no site Blog do Juliano.
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal
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Por: Hiago Júnior
13:34:00
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| Cena do filme: "Divertidamente' - Créditos: Disney |
As ondas fazem a dança. Coordenadas pelo vento, que ora sopra sussurrando, calmo, silencioso, ora sopra intensamente, agitado, nervoso. Na mistura de cores, em tons de verdes e azuis, o branco se quebra na areia. Ao longe, no horizonte, detrás das montanhas, laranja, vermelho, rosa, misturam-se, sinalizando o sol em alvorada.
O silêncio em segundos integra a música do balanço do oceano. Um espetáculo ininterrupto que acalma o coração, lágrimas felizes. A maré está cheia como as emoções daquele momento. Os olhos se perdem no infinito. Um sorriso, um agradecimento.
A atenção está voltada para as conchas, pequeninas, raras, mas ainda presentes na extensão da praia. Uma maior se destaca, rosada, com frisos fortes, certamente, morada de um molusco poderoso. Imponente, não se move, não se deixa arrastar, não deseja retornar à água. Do mesmo modo que se demonstra frágil, mostra-se guerreira, diferentemente, das outras que integram os movimentos do ir e vir do mar. A arrebentação é pulsante em todo o cenário alcançado pela vista. Na areia fina, nas rochas, no recife. Os coqueiros tremem no ritmo plural do vento. Ora para o sul, ora para o norte. De repente, para todas as direções, descompassados, mas atuantes na apresentação.
Ao longe, uma barraca coberta de sapê, abandonada, paredes caídas, barro seco, faz figuração ao lado de uma canoa quebrada. Em seu casco, lia-se o nome de batismo: Lua Anna, provavelmente, a amante do pescador, homenageada para agradar aos deuses marítimos. A curiosidade questionava a mente: o amor teria sido em vão, esquecido naquele deserto, sepultado para sempre? Ou teriam partido em outras aventuras, em barcos mais aconchegantes, para que o luar os abençoasse? Ah, lua! Quantos amores sua discrição protegeu? Ali, especulou-se que houvera um naufrágio, para o bem ou para a mudança. Naquela proa, paixão nunca mais.
Em relaxamento profundo, envolvido com os pensamentos sem destino, absorto sem questionamentos, em respiração ritmada com o equilíbrio das ondas: atenção, inspiração, expiração, cavado, crista, rebentação. Movimentos de contrair e de irradiar.
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Debaixo das pálpebras, cores multidimensionais se misturam dando o dom da aura: violeta, anil, azul – misturam-se feito fumaça. O cheiro de maresia, o gosto do sal, o tatear das partículas, o som do vento e das águas. Distante, a distração do canto de uma gaivota, solitária. Para vê-la, uma piscada sutil, e tudo se torna amarelo com a presença do astro rei, já majestoso no despertar da manhã.
Na sensação do calor, da brisa, os cabelos alvoroçados. Sentimento de gratidão pela saudade satisfeita. Durante um misto de lágrimas e risadas, ela surge sem alarde, paciente, sorrateira. A tartaruga faz companhia, admirando o instante, deslumbrando aquelas sensações de tranquilidade, de aconchego, de paz. Ela estica o pescoço, faz pose para uma reverência ao crepúsculo matutino, relaxa as patas, respira alto, mexe-se fazendo um convite com seus minúsculos olhos. Caminha para frente, disparada em sua velocidade natural, sendo envolvida pelas ondas. Entende-se o recado. Para celebrar a ocasião, um mergulho para lavar o corpo e a alma. A natureza se integra.
Artigo publicado originalmente no site Blog do Juliano.
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal
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Por: Hiago Júnior
14:47:00
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| Créditos: Reprodução Internet |
Depois do AVC, a cabeça deu uma virada. Diria que foi, literalmente, uma rima, um eco, uma pirada. Vi o filme da vida em poucos segundos me dizendo que era necessária uma mudança. Na alimentação, nos exercícios físicos, na convivência social, nas leituras, no trabalho. Aprendi no susto que era preciso desacelerar. Ficar mais quieto, usar o tempo também para procrastinar.
Usar o ócio para descansar o corpo, a mente. Na experiência de saber da proximidade da morte, decidi renascer para outro momento, outras oportunidades, reviver os sonhos de infância. Curar mágoas, procurar amigos esquecidos, planejar o futuro, mas, sobretudo, experimentar o presente com mais presença. Ser mais família, por exemplo.
Quando ouvi o médico dizendo “você está tendo um derrame”, flashes muito rápidos de cenas do meu cotidiano me contaram que de nada adianta acumular tesouros. Eles representam algo significativo somente para mim, pois eu que reconheço a história de cada objeto das inúmeras coleções que tenho espalhadas pela casa.
O que fariam com as minhas “coisas” após o velório, perguntei-me. Iriam para o lixo, doariam, criariam um museu? Saber a resposta é desnecessário. Além disso, fiquei pensando nas pessoas que me cercam, naquelas que se foram, em outras que passaram por alguns momentos, nas que não cruzam mais o caminho por falta da desculpa do tempo, do comportamento, das ideias que não combinam.
Lembrei-me da Alegoria da Caverna, ensinada por Platão a Sócrates: quando estamos no escuro, olhando para a parede, inertes ao desenrolar dos fatos, acompanhando as sombras, com medo das imagens disformes, duvidamos do que está lá fora. Não acreditamos no outro, que teve a coragem de ver o sol, de assumir uma nova postura de vida, de se iluminar de conhecimentos.
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Vemos, mas não enxergamos, já que é cômodo não enfrentar a realidade desconhecida. Qual o motivo de se movimentar diante do confortável? Assim, foi na pele, que descobri que a experiência terrena é um sopro. Realmente, a vida é curta. Era preciso sair da caverna do comodismo, da gruta das ilusões, do buraco sem fundo, da toca das certezas absolutas.
Fiz faxina, doei roupas e livros, apaguei e-mails, matriculei-me em cursos, resgatei contatos, procurei amigos, cortei o cabelo, troquei os móveis de lugar, revirei a alma. Ressignifiquei o sentimento, o trabalho, a empresa, o sonho. Fui ao passado para salvar memórias, buscando o encontro com os antepassados para reencontrar valores que estavam adormecidos. Doeu. Chorei, sofri, gargalhei. E, internamente, algo aconteceu, pois até meus órgãos se moveram em um processo de faxina.
Ser balzaquiano é um divisor de desejos e o corpo responde, em silêncio e na explosão de transformações. O diagnóstico é certeiro: tudo muda, quando decidimos traçar outra rota. Ainda não tenho grandes planos nem a coragem de radicalizar em alguns aspectos. Verdade é: sou e quero ser mais feliz. Ponto.
Artigo publicado originalmente no site Blog do Juliano
Juliano Azevedo
Terapeuta Transpessoal, Jornalista e Professor
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Por: Hiago Júnior
10:56:00
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| Créditos: Reprodução Internet |
Há muito tempo não escrevo. Tenho crises de imaginação para colocar as palavras no papel. Digito. Leio. Releio. Deleto. Faz parte do processo de todo escritor e, eu, particularmente, não gosto de escrever por obrigação, ainda mais quando um feriado se aproxima e entro no clima do descanso que ele oferece.
Logo, o cérebro só quer saber das fantasias do carnaval. E o ofício da escrita é por amor. Sou um contador de histórias. Conto uma a cada exemplo que vou elaborar nos diálogos. Casos de carnaval não faltam no meu repertório, por isso, o assunto desta crônica fluirá como um desfile das escolas de samba. Indo no ritmo...
Um dia me perguntaram se gosto de carnaval, já que não me encontram em nenhum bloco, andando atrás de trio elétrico. E respondo sem fazer grandes reflexões, pois, realmente, essa visão é rara. Evito a multidão, a bebedeira, os xixis nas portas dos vizinhos, o empurra-empurra, o glitter, o cheiro de álcool impregnado nos foliões e a ausência de desodorante em muitos corpos. Mas eu gosto da folia, da animação do povo, da necessidade que o brasileiro tem de extrapolar todos os limites em busca de felicidade. Amo as músicas, a disputa de qual hit será sucesso, as fantasias, o feriado, o desfile na Sapucaí, o samba. Carnaval é cultural e, nesse sentido, sempre terá meu respeito. Brasil não é o Brasil sem a festa.
Aliás, o País é um carnaval em qualquer época do ano. A data em si marca a tradição. De fevereiro (ou março) a fevereiro, o que acontece entre é pré-carnaval. Micaretas, festivais, rodas de samba, até rock, frevo, toada, e outras danças e ritmos folclóricos entram no script. Carnaval é a nossa alegria em curtir a vida. Já curti muito: bandas na Praça da Estação em Bom Despacho, praias do Espírito Santo, marchinhas em Ouro Preto, axé em Salvador, bloquinhos de Belo Horizonte, samba no Rio de Janeiro com direito à fantasia na Marquês de Sapucaí, camarotes, cachoeira na Serra do Cipó, piscina em Lagoa Santa e em Abaeté, Netflix e Amazon e 12 filmes em casa (em apenas dois dias). Curtindo um pouco de cada jeito de se viver o carnaval. Por que excluir o que se pode experimentar, não é mesmo? Ainda não tenho no currículo uma folia no exterior.
Já tive amor de folião, fui chifrado no bloco, apaixonei-me na sexta e desisti na terça, chorei a perda de um título da escola que torço desde a infância, desfilei em outra que foi rebaixada, terminei um namoro por causa do filme Titanic, e o que afundou foi meu carnaval. Camisa de turma, abadá, fantasia de mosqueteiro no clube social, crachá de VIP. Já vesti de tudo também, inclusive, calça e camisa para cumprir o plantão de trabalho.
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Banho de chuva, de espuma, de cerveja. Acompanhar o bloco Então Brilha? Isso não, pois acordar de madrugada jamais estará no meu roteiro. Porém, ver o nascer do sol cantando Ivete, de frente ao Farol da Barra, é tema para outra crônica. E assunto para muitos outros carnavais.
Coluna escrita originalmente para o site Blog do Juliano
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal
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Por: Hiago Júnior
23:34:00
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| Créditos: Reprodução Internet |
Era uma vez... Uma saudade que remete a muitas lembranças dos tempos da formação primária e das aventuras que passei na Escola Estadual Chiquinha Soares, principalmente quando me perdia nas prateleiras da biblioteca.
Meu espaço predileto para “matar” aula, para onde fugia nas horas vagas e nas pouquíssimas vezes em que fui colocado para fora de sala; local onde descobri e conheci um pouco do mundo, onde pude fazer viagens planetárias, onde fiz amigos imaginários e me transformei em diversos personagens. Certamente, entre os universos literários me apaixonei pela primeira vez. E esse amor permanece em chamas intensas no peito, vívidas como as memórias da infância.
Ah! Os livros. Arrepio quando os vejo, soltando corações apaixonados pelo corpo todo. Pode ser na livraria do bairro ou na megastore do shopping. Pode ser na loucura organizada dos sebos, nas prateleiras virtuais das lojas de e-commerce, ou na casa de quem visito. Guardo as dicas dos booktubers e salvo os e-books que recebo no WhatsApp (mesmo sabendo que nunca vou lê-los, pois prefiro os de papel). Sinto-me a Felícia, dos Tiny Toons, pois quero abraçar, cheirar, abrir, apertar, copiar, ler a orelha, levar para a minha coleção. Se alguém me presenteia ou doa obras, arrumo um cantinho. Em breve, não haverá espaço assim onde moro como no apartamento de uma amiga, que surgiu agora nas recordações.
Norma, portuguesa de nascimento, acolhida na França e alucinada pelo Brasil, recebeu-me em sua casa em Paris. Em seu quarto, milhares de livros empilhados como uma muralha de castelo, ao redor do colchão no chão. Ela quase escalava para conseguir se deitar.
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A cena era maravilhosa, pois eu imaginava que a ilustre leitora consumia o conhecimento durante o sono, por osmose com os autores. Divertidamente, revelou-me que recebeu uma indenização trabalhista e comprou tudo em livro para ter companhia o resto da vida. Investimento genial. E ainda me apresentou ao seu namorado literário, o marinheiro Corto Maltese, por quem é apaixonada. Tão apaixonada que turistou em todos os lugares por onde o personagem, criado por Hugo Pratt, passou em suas viagens.
Já fiz e pretendo fazer várias outras viagens sugeridas pelas palavras que li por aí. Certa vez, entrei em um museu em Florença – Palazzo Vecchio – apenas para admirar uma máscara mortuária, que foi roubada em um romance policial. Dante Alighieri me mandaria para o inferno por não dar atenção às outras obras de lá e os críticos de Dan Brown iriam estimular o fogo desse sacrilégio. Porém, acredito que esses estímulos, sobretudo dos cenários citados nos livros, me influenciam ao turismo desde quando eu mergulhava a imaginação nas histórias das coleções Veredas e Vagalume. Provavelmente, li todos como um leitor voraz que sou, pois entrar na biblioteca era semelhante ao enredo do filme História sem Fim, clássico dos anos 1980.
Nessa viagem, não coleciono personagens. Não me envolvo com eles sentimentalmente, até porque meu signo astrológico me tornou muito racional. Por isso, não repito a leitura de um livro. Vibro na filosofia da abundância: de textos, de obras, de autores, de personagens, de repertórios, de estilos.
Estranham quando revelo que leio quatro livros de uma única vez. E recomendo, pois jamais se estará solitário quando na cabeceira da cama houver uma pilha de páginas para se degustar. Já observei o andar de Capitu, assisti a uma palestra do professor Langdon, tomei café com a família Buendía, dormi na floresta com os gêmeos Yaqub e Omar, fiz selfie com Tieta em Mangue Seco, quase sofri um atentado de Lampião... Realmente, era uma vez.
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Matéria publicada originalmente no site Blog do Juliano
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
Membro da Academia Mineira de Belas Artes
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Por: Hiago Júnior
14:23:00
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| Crédito da foto: StockSnap por Pixabay |
Olho pela janela, as nuvens escuras, uma chuva persistente, fininha. Antenas nos outros prédios sinalizam o amor à televisão. A minha está ligada para fazer apenas barulho, uma companhia na manhã de sexta-feira, dia de preguiça – um pecado capital merecido para os momentos de férias. Café tomado com o pensamento no almoço.
Estômago está silencioso, assim como os vizinhos. Da sacada, fico imaginando o que se passa dentro das outras paredes. O que eles conversam? Em qual canal estão sintonizados? O que planejam para o fim de semana?
Persianas fechadas escondem os mistérios. As janelas de vidro despertam a curiosidade quando sombras se movimentam. Observo a transparência como um voyeur, desejando partilhar olhares. Ninguém aparece ou se arrisca ao contato. Ou também espiam detrás das cortinas, buscando desvendar o que eu penso por aqui? Segredos preservados pelo concreto. De repente, a chuva engrossa, o sol aparece. Diria o ditado popular: chuva e sol casamento de espanhol. E por que não me chamaram para essa festa? Agora anseio por um arco-íris. Para encontrar um tesouro... Ver um duende e o pote de ouro... A imaginação viaja na vidraça.
Na TV, um grupo toca clássicos do axé, anunciando o carnaval. Em outro momento, outra banda toca pagode. Um cantor apresenta cordéis. Os convidados do programa conversam sobre comportamentos e gostos musicais. Distraio-me com o celular e uma postagem no instagram está relacionada ao debate. Assim disse o texto: “vou tirar uma dúvida de vocês – tem como gostar de Chico Buarque e rebolar com uns funks.
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Também tem como ser inteligente e ver porcaria na TV, tipo BBB e novela. Tem como amar analisar os sermões do Padre Antônio Vieira e ser fã do Harry Potter. Dá para ser politizado e torcer pelo Brasil na Copa do Mundo. Sei que incomoda, mas cultura é a junção de todas as manifestações culturais. Não só o que você acha bom”.
Apesar de discordar de alguns pontos apontados pela autora – Ana Carolina Ruedas Veiga –, pensar em cultura brasileira (e na geral) mexe com as minhas emoções. Recordo-me da sanfona do meu avô e do prazer que ele tinha de dançar forró; da minha mãe apaixonada por Roberto Carlos e todos os boleros; das amigas sertanejas e das roqueiras; dos amigos que leem e veem Dan Brown e Game of Thrones e conversam sobre políticas públicas; dos que comem pastel na feira e postam fotos das viagens gourmets; dos que dançam funk e curtem MPB; de todos que enaltecem as divas do pop e assumem a paixão pelo sertanejo raiz; dos que vão da comédia ao drama, da série popular ao filme cabeça...
O que a janela esconde ou protege? Qual a cultura vivida entre quatro paredes? Dançar na chuva ou conforme a música? Acreditar na fantasia das cores do espectro da luz ou nas análises científicas da física, principalmente a quântica? Na força do pensamento, na fé, na razão? Culturalmente, a vida já é real até no mundo virtual. Nossas redes sociais já mostram que somos uma sociedade diferenciada do outro século. A chuva deu uma trégua. O calor aqueceu o quarto. Abro a janela para a entrada do ar. E assim vou vivendo, pensando, observando, no caminhar do clima, das oscilações do verão. Deu fome: partiu almoço.
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| Crédito da Foto: Fábio Linhares/Acervo Pessoal |
Filme é ficção. Sempre! Até mesmo quando retrata fatos reais. Há a presença ideológica do roteirista, do diretor, da escolha dos cenários e dos figurinos e de todas as opções para que a obra chegue às telas. Por isso, quando destacam que a estória surgiu a partir de uma história, enfatizam que o filme é BASEADO em algum acontecimento.
Ou seja, nem tudo será verdade. Essa é a minha convicção quando vou ao cinema ou quando acesso aos serviços de streaming. Filme é sinônimo de lazer, apesar de tantas reflexões e informações que trazem além do entretenimento.
Dito disso, relato minha experiência com o filme Dois Papas, um drama fictício de 2019, dirigido por Fernando Meirelles e escrito por Anthony McCarten, sendo estrelado por Anthony Hopkins e Jonathan Pryce. Aclamada pela crítica e pelos espectadores – meus amigos disseram para assistir, pois gostaram muito do conteúdo e da interpretação dos atores –, a obra mostra o período após a morte do Papa João Paulo II, o conclave que elegeu Bento XVI e a sua renúncia ao papado e a eleição do atual chefe da Igreja Católica, o argentino Jorge Mario Bergoglio.
Gostei dos diálogos entre os personagens, da revelação de suas posições teológicas, das cenas que demonstraram os rituais, como, por exemplo, o momento do conclave na Capela Sistina, com os votos sendo amarrados com uma linha vermelha, as bolinhas com os nomes dos cardeais indo para a urna, a lareira que revela com fumaça branca ou preta a escolha do pontífice – verdade ou um mistério, não saberemos o que é real ou imaginação do diretor. Enfim.
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Essa riqueza de detalhes atrai meus olhos. Sou fascinado com Anthony Hopkins desde quando assisti ao Silêncio dos Inocentes. Com seu brilhantismo natural ao atuar, fez com que Joseph Ratzinger se tornasse simpático.
Chorei muito: na revelação dos votos para Bergoglio; quando o argentino ensina o alemão a dançar tango; no diálogo em que os dois bebem Fanta e comem pizza; no momento em que Bento XVI tira fotos com os turistas; quando Bergoglio rejeita a tradição de roupas e de acessórios necessários para sua posse; no instante em que a humanidade de Bergoglio aceita uma muda de orégano do jardineiro da residência de verão do Papa. Chorei mais quando Bergoglio disse a frase: “se houver lágrimas, que sejam lágrimas de alegria.” Como não ficar mudo quando esse Papa pede uma oração?
Nesse momento, as minhas lágrimas eram de alegria, de uma lembrança de 2014, quando fui ao Vaticano. Marcamos a visita para uma quarta-feira, dia em que o Papa faz uma audiência na Praça São Pedro, mas ficamos sabendo que ele estava doente e não apareceria naquela data. Com agenda turística lotada, fomos assim mesmo, para visitar o Museu do Vaticano. Chegando lá, vimos alguém acenando do papa-móvel. Perguntei ao Fábio, meu amigo de viagem: estão fazendo um teatro com alguém muito parecido com o Papa Francisco? Percebi a gafe, quando, muito perto de onde estávamos, ele passou enviando suas bênçãos..
Foi um momento emocionante e inesquecível sentir a energia positiva do Papa, uma experiência única, de tanta sorte. Experiência boa também foi assistir, pela Netflix, a uma de muitas histórias desse argentino, que saiu do fim do mundo, para levar uma nova mensagem ao planeta, pois “em Roma, nunca se sabe o que vai acontecer.”
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Por: Hiago Júnior
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| Imagem meramente ilustrativa - Reprodução Internet |
Brinquedos de parque me assustam, principalmente aqueles que caem, que rodam, que balançam. Ou seja, a maioria. Tenho trauma de roda gigante e não me aventuro em montanha-russa. Já em clubes, quando vejo alguém descendo em toboágua, meu coração treme de medo.
Minha criança interior não é aventureira desde uma vez em que pulei de cinco metros numa cachoeira da Serra do Cipó. Naquele dia, eu estava confiante nas minhas habilidades como nadador, mas bati a bunda na água e fiquei duas semanas andando como o androide C-3PO, de Star Wars. A palavra que me move desde então é cautela.
Recentemente, minha sobrinha quebrou o braço após cair de uma cama elástica, brinquedo que ela sempre gostou desde os primeiros passos. Ela se esbalda no pula-pula, assim como as minhas outras duas sobrinhas, companheiras de diversão em qualquer festa que o objeto for destinado às crianças. Acredito que a menor delas aprendeu a falar pula-pula antes mesmo de balbuciar mamãe. Os olhos das meninas brilham quando a garagem é enfeitada com o brinquedo. Alegria para elas, descanso para os pais, mas para mim, vigilância.
Não gosto de pula-pula, mesmo quando a memória traz lembranças muito marcantes de uma visita da Tia Dulce a Bom Despacho. A apresentadora infantil dos anos 1980 recebia a meninada na cama elástica, dava uns três pulos com cada uma como sinal de afeto e fazia a fila andar. E que fila quilométrica...
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Para conseguir esse carinho era preciso esperar horas comendo algodão doce e pipoca, segurando a ansiedade, o xixi, o cansaço dos pais, o calor na moleira. Contudo, estar de mãos dadas com o ídolo da televisão era a materialização dos sonhos mais puros.
Acho a cama elástica um perigo constante. A meninada subindo e descendo, cada uma querendo ocupar o maior espaço, empurrões daqui, pernas em chutes acolá, trombadas nas quedas. Os menores admirando os pulos altos dos mais crescidos. Os monitores de olho nas mensagens de celulares, os pais bebendo e comendo nos fundos da festa, e as crianças nem um pouco preocupadas com a existência de boletos. Conferir a resistência das molas? A validade das cordas? O material da cerca de proteção? Ninguém repara nisso... Sinto que deixar o filho gastando a energia num cercadinho é um alívio para os adultos que também querem um momento de lazer, e de paz. No entanto, acidentes não foram previstos, não é mesmo? Só que eles acontecem o tempo todo.
Isso não é chatice de um tio que parece ser ranzinza porque não gosta de brinquedos que beiram o limite da aventura. É preocupação mesmo. É prudência observar mais o que as crianças fazem enquanto estão crescendo. Elas são curiosas, travessas e anseiam por experiências. Só aprenderão que tomada dá choque quando forem alertadas do perigo. Vão dar valor à respiração, depois de “tomar um caldo” no mar. Lerão livros se tiverem estímulo.
Serão prósperas se souberem o valor do dinheiro. Comerão comidas diferentes se um dia a batata frita não for o prato principal. Comigo foi assim: só aprendi que osso quebra quando tomei um tombo caindo de uma rede instalada a 20 centímetros do chão. Gesso por um mês, fisioterapia por dois, e anos de histórias para contar.
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Artigo publicado originalmente no site Blog do Juliano
Juliano Azevedo
Jornalista, Professor, Terapeuta Transpessoal
Mestre em Estudos Culturais Contemporâneos
E-mail: julianoazevedo@gmail.com
Instagram: @julianoazevedo