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CRÍTICA | La Candidata: Uma novela para poucos e muitos

Silvia Navarro como Regina Bárcenas em pôster promocional da novela 'La Candidata'. Créditos: TelevisaUnivision

Quando se pensa em novela mexicana, logo vem a mente a Televisa, emissora que têm produzido em larga escala várias telenovelas ao longos dos anos, produções estas que ganharam fama mundial e espaço nos corações de vários fãs de folhetins melodramáticos latinos.

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A memória também logo é associada aos remakes, revisitações de obras até datadas dos anos 60, 70, 80... que nas mãos de novos produtores e equipes ganham vida. Com isso, boa parte dos melodramas produzidos pela empresa acabam ganhando a fama de remake também, seja pela falta de informação ou até por preconceito prévio, mesmo que as mesmas tenham o carimbo de produção original. A Televisa, em especial, foco desta matéria com o passar dos anos sempre produziu tanto histórias originais quanto readaptações, são os casos de "La Usurpadora", remake da obra de Inés Rodena que ganhou fama no mundo através do produtor Salvador Mejía, mas que antes já havia tido outras versões, ou ainda "Manancial" original de Cuauhtémoc Blanco e Víctor Manuel Medina e "Cuna de Lobos" de Carlos Olmos, ambas criações inéditas - provando que a empresa de San Angel mescla originais com readaptações. Em meio a este turbilhão de produções, em 2016, os executivos decidiram aprovar uma sinopse ousada criada por Leonardo Bechini, baseada na ideia de Ariana Martín, Miguel Hervás, Covadonga Espeso, Jordi Arencón e Marta Azcona - assim nasceu "La Candidata", trama alvo desta crítica.

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Logomarca da novela 'La Candidata'. Créditos: TelevisaUnivision

Sinopse

Como muitas mulheres Regina luta diariamente pelo bem-estar de sua família, tendo que lidar com tudo, desde uma relação desgastada com o marido até a rebeldia do filho adolescente... Casada com o Chefe do Governo da cidade e, como se isso não bastasse, Regina ainda é uma senadora honesta, que procura sempre fazer o melhor pelos seus semelhantes. No mundo da política, um mundo de homens que constroem o poder a qualquer preço, Regina, luta para melhorar a realidade do povo e impor ideais ao poder. Quando Alonso, seu marido, decide disputar a candidatura presidencial, ele mostra sua verdadeira face: feroz, violento e perverso; capaz de destruir qualquer adversário político sem medir as consequências, sem perceber que está transformando sua melhor aliada, a parceira que o levou ao lugar mais importante de sua carreira, em sua principal adversária. Regina é forçada a enfrentá-lo e, nesse momento, Gerardo, um ex-colega de classe com quem teve um relacionamento, reaparece em sua vida. Ele não é apenas o principal rival político de Alonso e o homem que disputa a cadeira presidencial, mas também aquele que tentará recuperar o amor de Regina. Ao perceber que sua vida perfeita ao lado do homem que sempre achou que amava e com quem teve um filho agora está cheia de mentiras e traições, Regina toma a decisão de se afastar. A publicação de todos os segredos, enganos e ações corruptas de Alonso confirma para Regina que sua decisão foi correta. Ela sabe que agora para evitar um desastre ainda maior deve destruir seu mundo inteiro e transformar sua própria realidade com o intuito de prevalecer sobre um mundo cheio de corrupção. O destino então levará Regina a descobrir que seu caminho não está relacionado à política, mas ao lado de um homem honesto, que a apoia incondicionalmente, mesmo deixando de lado suas próprias ambições políticas, um homem que está lá para promovê-la e apoiá-la. Torna-se a candidata. Não é mais apenas uma luta política, é uma luta para defender e mudar não apenas o próprio destino, mas o destino de um país inteiro.

Confira a abertura



História original do escritor argentino Leonardo Bechini, "La Candidata" é baseada na ideia do quinteto Ariana Martín (Bandolera), Miguel Hervás (La Esquina Del Diablo), Covadonga Espeso (Antes muerta que Lichita), Jordi Arencón (Yo soy Bea) e Marta Azcona (Arrayán). Sob a chancela de Bechini, roteirista de amplo conhecimento das telenovelas latinas, a obra caminha por um roteiro muito mais feroz e visceral, onde o ficcional mergulha no real e conversa muito bem com ambos cenários. É uma telenovela realista que busca imprimir uma sensação de desespero ao retratar os meandros da política mexicana, a guerra eleitoral, a busca por poder e os bastidores tempestuosos pela gana por dinheiro. O interessante nesta abordagem é notar que mesmo com o foco bem delimitado, a trama apresenta ao público estórias de amor instigantes e preciosas que não se preocupam em ousar e polemizar, como também oferecer cenas robustas, onde o amor é visto em diversos aspectos e onde também o final feliz nem sempre é o esperado. 

Além de Bechini, a adaptação corre a cargo de Óscar Tabernise e María Elena López, trio que compartilha créditos em "Caer en Tentación", "Imperio de Mentiras" e atualmente "Mujer de Nadie" - todas produções de Giselle González - produtora responsável por conduzir "La Candidata".

O roteiro adentra em temáticas quase nunca reproduzidas nas telenovelas da TV aberta mexicana, principalmente quando associada a temática principal e não somente aos núcleos ou subtramas paralelas, e embora beba muito desta premissa, o texto é de certa forma abusado ao estampar uma ideia que instiga o público ao mesmo tempo que afasta, justamente pela abordagem que foge dos padrões. Nada é convencional, ainda que, como dito traga consigo realces dos estigmas dos folhetins melodramáticos clássicos, como o amor impossível de seus protagonistas, vilões dúbios e emblemáticos, a luta de classes ou ainda coadjuvantes intensos.

É neste momento que a trama cria uma espécie de subdivisão, pois ela não é um clássico e tampouco uma série/telessérie, funcionando muito mais como um hibrido e como tal, não nasceu para agradar gregos e troianos. A audiência corresponde muito bem com essa subjetividade, enquanto na TV aberta seja de certa forma rejeitada, na internet, a obra é um deleite.

Seria "La Candidata" uma novela social? Acredito que não. Seu papel como toda novela não é o de transpor fatos, números, ser uma fonte de opinião conduzida por um texto didático, e sim trasladar entre o folhetinesco e o palpável, tudo sem ficar didactológica demais. E neste aspecto o roteiro é coerente.

Rafael Sánchez Navarro e Víctor González em pôster promocional da novela 'La Candidata'. Créditos: TelevisaUnivision

Produzida por Giselle González com o apoio da associada Julieta de la O., "La Candidata" mais uma vez abraça a espírito de liderança e empoderamento feminino da produtora, que aloca em seus protagônicos mulheres fortes e destemidas, que lutam contra o patriarcado e os preconceitos enraizados da sociedade machista.

Em entrevista ao canal do Las Estrellas, Giselle falou sobre a novela.

"Bom, na verdade é que essa história me foi apresentada e indicada pela empresa (Televisa), na qual agradeço muito e não esperava, foi algo surpreendente para mim. Estou emocionadíssima, pois é um tema que me apaixona e o título, acredito, diga tudo. Quando me deram a oportunidade de produzir essa história, para mim foi algo muito estimulante".

O romance também foi marcado pela mudança de tecnologia, modernização das câmeras e fotografia mais semelhante ao cinema, conforme destacou González na mesma entrevista.

Estamos gravando com câmeras mais sofisticadas que nos dão mais nitidez que tivemos em outras produções, é outro tipo de imagem, uma imagem [...] mais contrastada, mais perto da tecnologia do cinema.

A produção de "La Candidata" respeita a ideia dos autores e também da produtora, ao dialogar e colocar a figura das mulheres em patamares de importância, como o caso da protagonista Regina vivida por Silvia Navarro ou Cecília interpretada por Susana González, que mesmo tendo o palco da mulher abrilhantado, apresenta cenários onde elas, as mulheres, ainda não são facilmente aceitas ou quando são, esse mesmo palco é estimulado para que a desistência seja uma opção.

O objetivo de Giselle é mais uma vez de tocar na ferida e mostrar ao telespectador cenários altruístas, com personagens íntegros, ambíguos, corruptos, dissimulados... que lutam pelo que acreditam, defendem uma causa, ou simplesmente criam uma rede de mentiras tecidas por intrigas unicamente para impor soberania, mostrando logo um viés supremacista do caráter humano.

Vale destacar o apoio de Julieta de la O. na administração da novela, cabendo a ela o manejo do elenco, detalhes da produção, além da gestão técnica juntamente a Giselle. Em miúdos, juntas, as duas transmitem o vigor da mulher.

Juan Carlos Barreto, Luz María Jerez, Federico Ayos, Rafael Sánchez Navarro, Silvia Navarro, Helena Rojo e Patricio Castillo em foto promocional da novela "La Candidata". Créditos: TelevisaUnivision

A direção de "La Candidata" é regida por Juan Pablo Blanco (El color de la pasión, La vecina, Caer en tentación e Mi marido tiene familia) e Eric Morales (Amor Real, Alma de hierro, Para volver a amar e Yo no creo en los hombres) - a dupla divide os créditos e entrega um resultado interessante e condizente com a proposta inicial. Paradigmática e agressiva, a direção usa e abusa de takes onde a violência causada pela corrupção é escancarada, portanto, cenas de sangue, tiro e pancadaria acabam se tornando a assinatura do suspense.

Isso não quer dizer que cenas brandas, cautelosas e até ponderadas não sejam entregues, muito pelo contrário: existe sim essa luta em balancear a trama, embora, a parte emotiva e dramática funcione muito mais como a cereja do bolo e não como a massa e o recheio.

Sempre quando abordo a direção dessa novela, gosto sempre de recordar da última cena da personagem Cecília de Susana González, pois ao meu ver ela resume muito bem o trabalho desenvolvido pelos diretores em uma única ação; o episódio apresenta um desfecho único, que mesmo triste e intenso consegue exibir a compreensível luta por aceitação. Uma luta que tem seu fim culminado numa direção astuta, sensível e respeitosa, dada as devidas proporções que a cena exigia. Bem como o desenlace de Gerardo ao tentar salvar Regina da eminente morte.

E como a novela não ostenta personagens bons em toda sua essência e sim personagens com sentimentos complexos e que tendem ao erro, a direção abusa dessa esfera ao introduzir uma melancolia, quase sempre acompanhada de instrumentais enérgicos. É neste ponto que as composições instrumentais de Jordi Bachbush fazem importante trabalho, pois são elas que conectam o drama e suspense das cenas ao delineamento necessário do roteiro, tendo como resposta final, a emoção do público.

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Victor González como Gerardo Martínez, seu protagonista em 'La Candidata'. Créditos: TelevisaUnivision

Como toda novela, "La Candidata" possui destaques positivos e negativos em seu elenco, seja no quesito entrega ou até mesmo no caminho trilhado pelos personagens que nem sempre são os esperados pelos "fan-services". Facilmente destaco três: a morte de Gerardo e a separação forçada com Regina, o triste embate final entre as irmãs Cecília e Regina e por fim, o término não tão amigável entre Cecilia e Hernán.

No contexto geral, a trama é um celeiro de boas atuações, reflexo do olhar de águia de Rodrigo Ruiz, que uniu no casting atores com vasta experiência na TV, jovens promessas, além de atores de teatro e cinema, trazendo jovialidade e frescor ao produto e fugindo da mesmice de sempre.

Susana González em foto promocional da novela 'La Candidata'. Créditos: TelevisaUnivision

Cecília foi um presente para Susana González, principalmente quando observado sua protagonista anterior; a pobre e frágil Julia de 'Pasión y poder' - com "La Candidata", González teve novamente em suas mãos uma personagem a sua altura. Confusa e sequelada, a vida de Cecilia é uma catástrofe ambulante, irmã bastarda de Regina, cresceu sem o amor do pai e o calor familiar e por conta disso não tem amor próprio. Seu maior dilema é conquistar a aceitação e para alcançar esse "status" trai seus valores e se transforma em uma mulher fria e calculista.

Longe de ser a vilã da novela, Cecília é complexa, situação que funciona como um trampolim para firmar mais uma vez o talento de Susana na criação do sentimental de seus personagens. É um show acompanhar os desenlaces amorosos, os destemperos, as ações incoerentes e a sobretudo a persistência para alcançar o básico, o respeito.

Rafael Sánchez Navarro e Silvia Navarro em foto promocional da novela 'La Candidata'. Créditos: TelevisaUnivision

Silvia Navarro também apresenta uma atuação acima da média, e assim como Susana foi presenteada com uma personagem altamente complexa. Vinda do sucesso de "Mi corazón es tuyo" de Juan Osorio onde deu vida a destrambelhada Ana Leal, Navarro mostrou versatilidade ao se despir da comédia pastelão e adentrar no mais puro drama.

Regina Bárcenas é uma protagonista deleitável e nada submissa, que infeliz com os rumos da política mexicana se entrega de corpo e alma a um projeto de governo melhor, igualitário e que atenda principalmente as minorias. Ação que desperta a fúria do alto escalão conservador e abre fogo para uma sequência de infortúnios que acaba refletindo até em sua vida pessoal já desgastada. Como seu pior rival está seu próprio marido, que sem pudor algum usa dos mais variados artifícios para conseguir alcançar seu desejo final, o poder e a cadeira de presidente. E se Alonso, seu marido está de um lado, Gerardo (Victor González) está justamente no oposto, fornecendo apoio, amor e uma mão amiga. Uma relação cheia de altos e baixos que culmina em um fim trágico e bastante emocionante. Com "La Candidata" a experiência de Silvia Navarro se faz gritante. Grande, Regina é uma extensão do talento da atriz e uma de suas melhores protagonistas.

Navarro e González são a força motriz da novela, porém não os únicos destaques, desta forma, merecem menção as atuações de Víctor González, Rafael Sánchez Navarro, Helena Rojo, Juan Carlos Barreto, Patricio Castillo, Nailea Norvind, Juan Martín Jauregui, Laisha Wilkins, Verónica Langer, Luz María Jerez, Pilar Ixquic Mata e Ari Telch que entregaram atuações coerentes e promissoras em seus respectivos personagens.

"La Candidata" é muito mais que um duelo entre poderes e os bastidores de uma corrida presencial, é uma trama sob abnegações, sobre desamores e a busca por aceitação. É a feroz batalha entre duas irmãs, o confronto pelo seio familiar e a permanência no coração daqueles que mais amam. É uma telenovela sobre longanimidade.

Confira o trailer


Uma telenovela relativamente curta, apenas 62 capítulos, "La Candidata" é uma trama para abraçar poucos e muitos, um folhetim ágil, repleto de desfechos inteligentes e atuações alicerçadas. Longe da TV aberta brasileira (uma opção coerente) o romance cabe muito melhor no streaming, vide o público que o consome ser mais aberto as temáticas e reviravoltas da produção.

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